Desafios na Adaptação do Inglês Britânico em Dragon Quest VIII

Redação
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Recentemente, tivemos a oportunidade de conversar com Richard Honeywood, uma verdadeira lenda na área de localização de videogames. Ele deixou sua marca em empresas renomadas como Seibu Kaihatsu, Square Enix e Blizzard. Durante sua passagem pela Square Enix, Honeywood teve um papel fundamental na elaboração de Dragon Quest VIII, a primeira entrada principal da icônica franquia de RPG que introduziu vozes nos diálogos, algo que inicialmente não agradava o criador da série, Yuji Horii.

Para a versão em inglês do jogo, Honeywood preferiu utilizar o inglês britânico em vez do americano, buscando diferenciar Dragon Quest de Final Fantasy. Ele menciona: “Final Fantasy no Ocidente era essencialmente cyberpunk. Você consegue usar o inglês americano mesmo em cenários mais clássicos, pois possui esse elemento cibernético. Já Dragon Quest é uma fantasia mais tradicional. Na verdade, as traduções originais no NES eram um pouco no estilo faux-Shakespeareano, mesmo que feitas por tradutores americanos.”

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Honeywood, que é australiano, acredita que o humor britânico combinaria perfeitamente com a abordagem “cômica e leve” de Dragon Quest, embora isso não fosse bem recebido no escritório americano, que não compreendia essa nuance e manifestou descontentamento. Ele recorda: “Até o Yutaka Sano era contra. Ele dizia: ‘Se você deixar o inglês britânico entrar, tudo vai mudar, e não vai vender na America.’ Ele estava firme nisso. Então eu respondi: ‘Respeito sua opinião, farei uma versão leve do inglês britânico.’ Ele então concordou em que poderíamos usar a pontuação e a fraseologia britânicas, mas não a ortografia — o que, convenhamos, soa como uma regra estranha; ou é britânico ou não é. Assim, em jogos posteriores como Dragon Quest Heroes: Rocket Slime, ele não permitiu que usássemos a grafia britânica, mas pudemos manter a pontuação e a fraseologia. Então, ao invés de ‘colour’, optamos por ‘hue’.”

Honeywood também enfrentou obstáculos quanto às equipes de tradução que desejava utilizar; ele comenta que, embora o uso do inglês britânico fosse uma vantagem por possibilitar a colaboração com tradutores desse estilo, ele precisou deixar alguns de fora – embora houvesse um aspecto positivo nessa situação.

Ele trabalhou com a Plus Alpha (“um casal que já trabalhou em muitos jogos e que tinha o humor peculiar que eu buscava”) e recrutou Morgan Rushton, um testador de qualidade, como editor, além de outro testador, Oli Chance. “Mais tarde, Oli e Morgan formaram a Shloc, que é uma das melhores casas de tradução do Reino Unido atualmente. Mas tudo isso surgiu a partir da minha iniciativa de trazê-los para trabalhar em Dragon Quest.” (Entre os títulos recentes da Shloc estão Death Stranding e Final Fantasy XVI.)

Entretanto, o escritório americano ainda impôs sua vontade, exigindo que “pelo menos um americano” fizesse parte da equipe para “garantir que os americanos entendessem”. Para isso, Honeywood trouxe Matt Alt, que havia trabalhado em Dragon Quest VII, como editor. “Sempre que criávamos piadas ou algo do tipo,” acrescenta Honeywood, “tínhamos que conferir se ele entendia ou não, e ele se tornou nosso termômetro. Um exemplo são Cash e Carrie, que estavam em uma cidade chamada Baccarat. Eram dois personagens que caracterizamos como americanos bastante diretos, basicamente britânicos tirando sarro dos americanos. Matt achou hilário e nos ajudou a intensificar essas referências.”

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