O Console Mais Ruim de Todos os Tempos Completou 20 Anos – Vale a Pena Conhecer o Gizmondo em 2025?

Redação
por
12 min de leitura

As muito que aprecio o hardware de jogos moderno, sinto que tudo se tornou um pouco convencional para o meu gosto. As gigantes do setor, como Nintendo, Sony e Microsoft, dominam a indústria atualmente e, fora algumas exceções como Valve, AYANEO e ROG – que estão criando produtos semelhantes na forma de PCs portáteis – restam poucas experiências inovadoras e fora do comum.

Ao contrastar com as décadas de 80, 90 e 2000, a situação era bastante oposta; muitas empresas tentavam entrar no mundo dos games e a maioria das iniciativas de hardware acabava em fracasso. No entanto, são essas tentativas que considero mais intrigantes, e nenhuma se destaca mais do que o Gizmondo, que detém o recorde indesejado de ser o console portátil menos vendido de todos os tempos. Em 2007, foi ainda eleito como o “pior console de todos os tempos” pela GameTrailers.

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

Este ano, o sistema completou 20 anos, e visto que consegui ressuscitar minha unidade empoeirada, achei que era o momento perfeito para explorar sua história – que, parafraseando Edmund Blackadder, tem mais voltas do que um caminho tortuoso.

### Começando do Zero

Em 2005, uma pequena empresa de eletrônicos sueca acreditava de verdade que poderia desafiar a potência da Nintendo e da Sony. Essa empresa, chamada Tiger Telematics, desenvolveu o Gametrac, e, segundo seu chefe, Carl Freer, o conceito inicialmente focava em permitir que pais preocupados pudessem monitorar os filhos. No contexto dos horrendos assassinatos de Soham, em 2002, e antes dos smartphones conseguirem localizar você 24 horas por dia, essa ideia era até bastante nobre.

Rapidamente rebatizado como Gizmondo, o console foi projetado pelo falecido Rick Dickinson, famoso pela icônica carcaça do ZX Spectrum. Com uma tela de 2,8 polegadas e 320 × 240 pixels, o Gizmondo foi concebido como um sistema de “convergência”; além de rodar jogos, ele poderia reproduzir filmes e músicas, atuar como um sistema de navegação por satélite e até tirar fotos com sua câmera JPEG.

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

Comparado aos hardwares da época, ele era surpreendentemente potente; equipado com um processador Samsung S3C2440 ARM9 de 400 MHz e uma GPU Nvidia GoForce 3D 4500, o Gizmondo definitivamente tinha capacidade. Fora os jogos, sua funcionalidade de GPS chamava atenção, permitindo enviar e receber mensagens de texto, compor e-mails e até acessar a internet – tudo isso fez com que o aparelho parecesse futurista, mesmo em comparação com o Nintendo DS e o Sony PlayStation Portable.

Hoje, é impressionante pensar que a Tiger Telematics conseguiu gerar tanta expectativa em torno de um produto completamente novo e não testado, e muito disso se deve à imagem que a empresa construiu na mídia. Uma festa de lançamento luxuosa foi realizada em 2005 no Park Lane Hotel, em Londres, atraindo celebridades como Busta Rhymes, Pharrell Williams e Sting, enquanto a abertura da loja Gizmondo na Regent Street gerou um verdadeiro frenesi, dando a impressão de que um sucesso estrondoso estava a caminho. O que mais esperar quando figuras como Verne Troyer, Lennox Lewis e (ahem) Dannii Minogue estavam presentes?

Essa onda de entusiasmo teve um impacto claro, pois publicadoras independentes se apressaram em apoiar o console. Em abril de 2005, a Ubisoft anunciou que traria Rayman para o Gizmondo, junto a mais três títulos. Não demorou para que outros como Sega (Sonic the Hedgehog, OutRun, Golden Axe, Altered Beast e Shinobi), Microsoft Game Studios (Age of Empires, Mech Assault), Team17 (Worms World Party) e SCi (Carmageddon, Battlestations: Midway) se juntassem ao time. A Tiger Telematics anunciou que 89 jogos chegariam em 2005, garantindo que os fãs estavam empolgados.

Embora muitos desses jogos não aproveitassem os recursos únicos do Gizmondo, um título, Colors, tinha a ambição de se tornar o “killer app” do console. Um jogo de ação em terceira pessoa, semelhante ao Grand Theft Auto, foi anunciado como “o primeiro jogo portátil do mundo com GPS” (embora nunca tenha sido lançado, imagens estão disponíveis online).

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

### Preço no Céu

A etiqueta de preço do Gizmondo, que era de £229,99 (mais de $400), o tornava significativamente mais caro do que o Nintendo DS no Reino Unido na época de seu lançamento, superando também o PSP e o Nokia N-Gage. Apesar das alegações de Freer sobre 560.000 pré-encomendas, o console acabaria vendendo menos de 25.000 unidades durante sua existência.

Essa abordagem a preços de hardware incluía uma opção chamada ‘Smart Adds’, que custava £100 a menos que a versão padrão do console. Essa opção exibia três anúncios em pontos aleatórios a cada 24 horas. Hoje, a ideia de jogos suportados por anúncios não parece tão intrusiva, mas era absolutamente única em 2005. Contudo, esse serviço nunca foi ativado de fato, o que significava que qualquer um que adquirisse essa variante do Gizmondo a obteve a um preço reduzido – embora, a longo prazo, o valor do sistema tivesse uma queda drástica à medida que a expectativa se desvanecia rapidamente.

### Como Perder $300 Milhões

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

Não vou recontar a história de Stefan Eriksson – uma reportagem fantástica sobre isso no Eurogamer faz isso muito melhor, então recomendo que você leia – mas, de qualquer forma, as coisas começaram a desmoronar em outubro, poucos meses após o lançamento do console, quando o jornal sueco Aftonbladet revelou as atividades criminosas de alguns executivos envolvidos com o Gizmondo.

Foi revelado que Eriksson, chefe da Gizmondo Europe, estava vinculado à máfia sueca, e Johan Enander e Peter Uf (também membros da máfia) trabalhavam na empresa. O timing não poderia ser pior, pois o lançamento do Gizmondo nos EUA estava em andamento. Com a saída de Freer, Eriksson, Enander e Uf, toda a operação entrou em colapso.

Mais tarde, descobriu-se que os executivos do Gizmondo estavam pagando salários exorbitantes e adquiriam itens de luxo como carros esportivos, relógios e até um cavalo de corrida. Um relatório da Comissão de Valores Mobiliários destacou a situação financeira catastrófica da empresa; na primeira metade de 2005, a perda operacional excedia $200 milhões.

Negócios irregulares vieram à tona, incluindo um em que uma taxa de licença de $4 milhões foi paga à Game Factory Publishing, uma empresa gerida por um amigo próximo de Freer; zero jogos foram produzidos neste acordo.

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

Após a saída de Freer e os demais executivos, a Gizmondo Europe deslizou para a administração em 2006, acumulando uma dívida de $300 milhões / £160 milhões. Um representante de uma das empresas contratadas para liquidar o negócio afirmou que, mesmo com todos os luxos, seria impossível queimar tanto dinheiro em um período tão curto, reforçando a suspeita de que os executivos do Gizmondo estavam envolvidos em práticas fraudulentas.

### O Gizmondo Hoje

Apesar de ter lido sobre a ascensão e a queda dramática do Gizmondo ao longo dos anos, o console desapareceu da minha vista. Curiosamente, a primeira vez que o vi pessoalmente foi em uma concessionária local, muito depois de sua fabricante ter desaparecido. O lugar estava vendendo não como um dispositivo de jogos, mas como um acessório barato de navegação para carros.

Anos depois, em 2018, finalmente consegui um, quando a Extreme Gamez, uma loja de video game nas proximidades, fechou as portas pela última vez. O dono estava vendendo diversos itens que previamente eram utilizados para exibição. Ele tinha uma versão ‘Smart Adds’ do Gizmondo à venda, que ainda vinha com o software de navegação Co-Pilot e um par de fones de ouvido (bastante simples) com a marca Gizmondo. Não consegui resistir, mesmo com a má reputação do console.

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

Comprei-o mais por curiosidade mórbida do que por qualquer outra razão; foi vendido como defeituoso, pois, mesmo com a fonte de alimentação, desligava após alguns segundos. O problema estava relacionado à bateria recarregável que, após anos de inatividade, havia perdido a forma e começava a inchar.

Essa unidade ficou intocada no escritório da Hookshot Media por anos até que percebi que este ano marca o 20º aniversário do Gizmondo. Ansioso para fazê-lo funcionar novamente, pesquisei e descobri que a bateria defunta poderia ser substituída por uma originalmente projetada para celulares Motorola.

Com um Gizmondo funcionando em mãos, finalmente pude testá-lo. Primeiro, a textura de borracha infame do dispositivo é horrendiamente desagradável. Alguns a comparam a ‘carne morta’, e não é raro ver unidades usadas cobertas de mofo. Eca!

Felizmente, existem maneiras de remover essa textura, o que aparentemente torna o aparelho muito mais aceitável. Ainda não decidi se terei coragem de realizar esse procedimento, mas é bom saber que a opção existe. Uma das principais motivações para fazê-lo seria, claro, jogar, mas é aí que as coisas complicam um pouco (sem trocadilhos).

- CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE -

Com apenas 14 jogos, a biblioteca do Gizmondo é bem pequena, e não há exatamente um “killer app” que justifique sua posse. Desses títulos, Trailblazer é um dos mais atraentes; trata-se de uma atualização do jogo homônimo de 1986 de Shaun Southern, que possui uma pegada acessível e divertida. Quanto aos outros jogos, os preços podem ser bem elevados – o que não surpreende muito quando pensamos nas tiragens limitadas de algumas dessas produções. Além das versões oficiais, é possível também rodar jogos de Mega Drive no Gizmondo, por exemplo.

Mas, será que vale a pena procurar um Gizmondo para usar como sistema de jogos? Considerando o baixo número de unidades em circulação, não é surpreendente descobrir que eles estão sendo vendidos a preços elevados atualmente. Exemplares completamente embalados agora custam mais do que os £229 do preço inicial do console, enquanto unidades lacradas com todos os 14 jogos estão sendo vendidas por milhares de libras no eBay. Aparentemente, com o passar do tempo e a falência de unidades, o valor só tende a crescer.

Com isso em mente, argumentaria que, assim como há 20 anos, o Gizmondo realmente não vale seu tempo, a menos que você tenha o prazer de possuir uma tecnologia falida (o que, admito, eu totalmente aprecio).

Compartilhe Este Artigo