Quando a Nintendo revelou o Switch em 2016, a reação do mundo foi de pura empolgação. Um console híbrido que podia ser jogado tanto na rua quanto na TV parecia algo inovador, desafiando a norma entre os mercados de hardware doméstico e portátil. Mas, claro, sempre tem aqueles que aquietam-se um pouco antes de soltar um "Peraí! Já vi essa mágica antes, e não foi em um console da Nintendo!" (Essas são as mesmas pessoas que você evita convidar para as festas, por sinal).
Com isso, eles se referiam, é claro, ao portátil Nomad da Sega. Lançado exclusivamente na América do Norte em outubro de 1995 por US$ 180, o Nomad era uma versão portátil do Genesis/Mega Drive, capaz de rodar todos os cartuchos do Genesis. Embora a próxima geração de consoles já estivesse a todo vapor — com o PS1 e Saturn lançados no Japão no final de 1994 e prestes a chegar ao Ocidente naquele mesmo ano — o Genesis ainda era visto como uma plataforma "atual". A possibilidade de jogar jogos caseiros relativamente novos em qualquer lugar era um verdadeiro presente. Alguns anos antes, a NEC já havia arriscado algo semelhante com o TurboExpress/PC Engine GT, mas essa plataforma particular não tinha o recurso matador do Nomad: a opção de jogar na TV.
O Sega Nomad estava surfando a onda do "híbrido" já em 1995. Por meio de uma porta AV localizada na parte superior do console, era possível conectar o Nomad à TV, fazendo-o funcionar como um Genesis padrão — e a Sega até incluiu uma porta para um segundo controle na parte inferior, permitindo que um amigo se juntasse à diversão. Essa funcionalidade foi vista como um bônus interessante na época, mas não conquistou tanta atenção quanto o Switch, por diversas razões.
A primeira delas foi que o Genesis era visto como uma plataforma em declínio, o que fez com que a expectativa em torno do Nomad fosse bastante contida. Um fator ainda mais preocupante era o fato de que, assim como o Game Gear, Atari Lynx e TurboExpress, o Nomad consumia pilhas AA a uma velocidade impressionante, com um novo conjunto durar cerca de quatro horas. E como se não bastasse, a unidade era tão volumosa que a Sega não conseguiu integrar as pilhas ao design do dispositivo; em vez disso, era necessário colocar seis delas em um caddy especial que se fixava na parte de trás, tornando o portátil ainda maior. O display LCD, embora iluminado, também tinha problemas com borrões durante movimentos.
Embora fosse radical poder jogar toda a biblioteca de 16 bits da Sega em movimento, o Nomad não fez sucesso comercial e vendeu mal; como consequência, as unidades se tornaram relativamente raras e agora são comercializadas por preços altos. Essas limitações levaram a várias modificações aftermarket, incluindo upgrades de tela e pacotes de bateria externos, mas o verdadeiro destaque das modificações do Nomad vem de Oleg Endo, o engenheiro baseado no Japão responsável pelo kit Venus SUB 2020.
Construindo o Ultimato Sega Nomad
Esse mod inclui a placa sub-Venus de Endo com uma tela LCD IPS montada, uma bateria de lítio recarregável de 5000 mAh, uma placa de oscilador dupla, um vidro protetor para a tela, entre outros componentes, atualizando efetivamente o Nomad para a era moderna. A melhoria mais evidente é a tela; mesmo quando comparada a outras melhorias de tela do Nomad, a solução de Endo está anos-luz à frente, pois utiliza o sinal RGB do console em vez do sinal de vídeo composto, como acontece com outras telas. A diferença em relação ao LCD original do Nomad é ainda mais impressionante.
A bateria interna é outra surpresa. Endo conseguiu acomodar uma robusta célula de 5000 mAh dentro do Nomad, o que elimina a necessidade de utilizar o caddy externo (embora seja bom lembrar que você ainda pode usar o pack de bateria recarregável Laser Bear com essa mod — ele até recarrega a bateria interna se estiver conectado). A entrada de energia padrão foi substituída por uma moderna USB-C, permitindo carregá-lo com o carregador do seu celular. Você obtém cerca de oito horas de jogo por carga, e há até um LED de carregamento que indica quando a bateria está carregando (laranja) e quando atinge a carga total (verde).
Esse mod não para por aí. O interruptor de energia agora é um deslizante em vez de um botão, e você pode reiniciar o console rapidamente durante o jogo. O mod também melhora o áudio do alto-falante mono do console, tornando-o mais alto e claro, com suporte embutido para um segundo alto-falante, que pode ser utilizado em um futuro upgrade de som estéreo.
Os controles de volume e brilho foram substituídos por interruptores deslizantes, que têm uma resposta incrível. Você também receberá uma indicação na tela ao ajustar qualquer um desses controles, e cada interruptor tem uma função adicional ao ser pressionado; no controle de volume, pressionar o interruptor silencia totalmente o áudio, enquanto no controle de brilho traz à tona a arma secreta do mod: um menu na tela repleto de funcionalidades fantásticas.
A partir desse menu — acessível a qualquer momento com o dispositivo ligado — você pode selecionar o modo de vídeo do console, permitindo até jogar com jogos de qualquer região. O Nomad original está configurado para NTSC dos EUA, o que significa que jogos bloqueados por região normalmente não funcionariam nele. No entanto, é possível alterar o vídeo ou as configurações de idioma através desse menu, liberando toda a biblioteca do Mega Drive. Além disso, é possível escolher um filtro de tela (nítido, médio e suave — eu prefiro a opção nítida), forçar uma configuração de controle de três botões, ativar a saída para TV (o mod desativa por padrão devido ao consumo de energia), alterar suas opções de sincronização de vídeo e até desativar os "recados" que aparecem ao ligar o sistema.
Com um cartão flash, o Nomad consegue basicamente carregar toda a biblioteca do Mega Drive, e lembrando que você pode até aumentar a velocidade do relógio do Nomad até um máximo de 10 MHz, embora isso possa não ter resultados visíveis consistentes durante o jogo. Ah, e ele também permite jogar jogos do Master System através de um cartucho flash, bem como jogos do Sega CD/Mega CD com áudio ao usar um cartucho como o Mega SD ou Mega Everdrive Pro (para obter som em jogos do Mega CD, normalmente é necessário realizar uma modificação interna separada).
Reunindo todas essas melhorias em um único pacote, temos o Sega Nomad definitivo, que tem potencial para ficar ainda melhor, pois a porta de carregamento USB-C também permite atualizações de firmware.
O Homem Por Trás do Mod: Conheça Oleg Endo
Oleg Endo: A história é bem simples. Em 2020, comprei um Nomad usado. O principal objetivo era fazer com que meus filhos não ocupassem a TV o tempo todo jogando Mega Drive. O segundo objetivo era eu querer jogar Xeno Crisis na cama. O vendedor bagunçou a embalagem ao colocar a fonte de energia diretamente na tela. Ele chegou quebrado e comecei a procurar formas de consertá-lo. Naquele momento, todas as soluções de substituição de tela disponíveis estavam esgotadas ou eram conhecidas por problemas como cintilação severa durante o movimento e afins. Além disso, o Nomad que comprei não incluía um case para pilhas, então precisei usar a fonte de energia o tempo todo. Esses dois problemas (tela quebrada e case de pilhas ausente) foram, basicamente, a origem do mod.
Time Extension: Qual aspecto do mod tomou mais tempo para acertar?
Oleg Endo: Definitivamente os circuitos de fonte de alimentação e o software. Com dispositivos mais antigos e parcialmente analógicos como o Mega Drive, os circuitos de alimentação podem ser complicados. Atualmente, podemos ver isso na forma de várias placas de mod "anti-ruído" ou "anti-zumbido", que substituem ou melhoram o desempenho dos circuitos de alimentação originais. No caso do VENUS SUB 2020, é necessário lidar com diversas fontes de energia e carregamento de bateria. Embora as soluções finais possam parecer óbvias e simples, levará um tempo considerável e experimentação para chegar lá.
Quanto ao software, a codificação no chip escalador de vídeo não foi fácil. Passei bastante tempo construindo e aprimorando ferramentas de desenvolvimento. Para ter uma ideia, a nova placa VENUS SUB 2020 roda software em dois CPUs de 8 bits, cada um com cerca de 1 KByte de RAM. Otimizar o software para esses sistemas pode ser uma diversão, mas também é bastante demorado.
A nova tela é de tirar o fôlego e está muito à frente da que o Nomad veio. O mod Venus tem uma tela de inicialização própria, com citações divertidas.
Time Extension: De qual elemento do mod você mais se orgulha?
Oleg Endo: O fato de que, no final, após todas as dificuldades, consegui fornecer uma solução coerente que tinha em mente desde o início. Quando comecei, examinei o que outras pessoas já haviam feito, como substituir a tela e enfiar baterias recarregáveis dentro do Nomad. Parecia uma aventura e, em alguns casos, até perigoso. Todas essas soluções eram um tipo de remendo que não me agradava.
Time Extension: Houve quaisquer funcionalidades que você gostaria de incluir, mas não conseguiu?
Oleg Endo: Sim, várias! Tive que cortar algumas bordas aqui e ali para manter o tempo de desenvolvimento e o custo final do produto sob controle. Mesmo que esteja começando a lançar as vendas, o desenvolvimento ainda está em andamento. Espero poder oferecer suporte e melhorias no futuro.
Time Extension: Uma coisa que eu adoro sobre o mod Venus é a capacidade de atualizar o firmware via USB-C. Como você vê a evolução do firmware com o tempo?
Oleg Endo: Algumas funções de hardware estão presentes, mas atualmente não são utilizadas devido à falta de suporte de software. Além disso, há espaço para algumas "gimmicks" de software. Espero desbloquear essas funcionalidades gradualmente com futuras atualizações de software e, claro, fornecer melhorias e correções para os problemas conhecidos existentes.
Time Extension: Como tem sido o feedback da comunidade?
Oleg Endo: Claro que nem todos ficarão 100% satisfeitos. Sempre haverá os que reclamarão do tempo. Mas, de forma geral, o retorno foi bastante positivo! Sou muito grato a todos que estiveram por aqui, esperando pacientemente!
Time Extension: Você está realizando todas essas modificações sozinho. Tem sido desafiador atender à demanda?
Oleg Endo: Para ser sincero, subestimei a quantidade de trabalho e dinheiro que seria necessário para atingir o nível ao qual eu queria chegar. Houve várias ocasiões em que pensei em desistir. Fazer modificações em uma ou duas consoles para mim é uma coisa, mas repetir isso centenas de vezes para outras pessoas é algo completamente diferente.
Time Extension: Você tem planos para outros mods de console no futuro?
Oleg Endo: O espaço de modificação se tornou muito concorrido nos últimos anos e atraiu engenheiros muito brilhantes. Acredito que, atualmente, praticamente todos os consoles já foram abrangidos por várias modificações. Fica cada vez mais difícil criar algo novo que seja prático e útil. Não estou descartando nada, mas por enquanto, o Nomad é minha prioridade. Acredito que ainda tenha potencial.
Se você deseja saber mais sobre o kit Venus SUB 2020, sinta-se à vontade para conferir o site de Endo.
